Como Campinas tem ensinado a construir uma região empreendedora no Brasil

Falar sobre o ecossistema de empreendedorismo da região de Campinas pode ser até clichê, pois a maioria das pessoas interessadas conhecem os papel da Unicamp na produção de patentes e empresas – como apresentado na matéria do prof. Marcelo Nakagawa, que aponta que os seguintes dados sobre as empresas filhas da Unicamp: “um conjunto monitorado de 286 empresas que foram criadas por egressos da instituição e que juntas faturaram algo próximo a R$ 3 bilhões e geraram 20 mil empregos altamente qualificados em 2015.” Além disso, a região conta com a Associação Campinas Startups, cinco parques tecnológicos, incubadoras e aceleradoras de startups de ponta e incentivos fiscais altamente diferenciados para empresas de todos os portes (para mais informações sobre o ecossistema, consulte aqui). E como a proposta da nossa plataforma não é ser clichê, resolvemos ir um pouco além e falar sobre como esse ecossistema também tem se esforçado para gerar transbordamentos! Um dos principais deles aconteceu recentemente e será o foco do nosso compilado de aprendizados: a última Conferência Campinas Startups, que trouxe grandes expoentes de ecossistemas do Brasil inteiro para tratar sobre os temas de sua especialidade.

feld

Com um intenso foco no papel das corporações – o que atraiu ótimos contatos para empreendedores que aproveitaram a oportunidade de estar com executivos de diversas empresas, como Google, Telefonica, Embraer, AES Eletropaulo, Braskem e outras -, resolvemos trazer para os leitores os três grandes blocos tratados: (i) construção de comunidades, (ii) o papel das grandes empresas e (iii) startups.

Construindo comunidades de startups

Há muito interesse, seja por parte de governos, agentes beneficiados ou empreendedores, em que se construam comunidades de startups no Brasil. O motivo é simples: uma comunidade vibrante organiza melhor seus recursos, e como tem-se na teoria da Visão Baseada em Recursos – uma das mais clássicas em empreendedorismo, um bom empreendedor é aquele que consegue organizar em torno de si uma boa gama de recursos para explorar oportunidades. Bons ecossistemas de empreendedorismo são aqueles que possuem agentes bem articulados e cuja troca de recursos ocorre de maneira fluida e saudável, e isso não ocorre com tanta facilidade. Na conferência, alguns tópicos foram discutidos sobre construção de comunidades, tais como:
(a) Boulder Thesis: A “tese de boulder” é uma abordagem proposta por Brad Feld em seu ótimo livro “Startup Communities”, no qual o mesmo aponta a sua tese sobre os pilares para se desenvolver uma comunidade de startups – (i) ela deve ser liderada por empreendedores, não por políticos, empresários, aceleradoras, fundos ou qualquer outro. Aqui, empreendedores são os “leaders”, ao passo que esses outros agentes são os “feeders”, e quando essa ordem ocorre de maneira contrária, problemas acontecem. (ii) deve haver compromisso de longo prazo, e por longo prazo entende-se 20 anos. Sim, 20 anos. A construção das redes de apoio, o amadurecimento dos empreendedores e dos outros agentes, a descoberta das vocações das organizações etc. ocorre de maneira lenta, e Brad Feld reforça que é preciso entender esse esforço de longo prazo e ter paciência/resiliência. (iii) deve ser inclusiva. Pois é, sabe aquela panelinha de empreendedores, ou de aceleradoras, ou de qualquer outro corpo que somente privilegia os seus, sobe barreiras para com outros e vive de críticas/mimimi contra o outro? Eles não leram o livro. Você pode se perguntar – mas e como se proteger dos aproveitadores? A resposta de Feld é simples: dê trabalho a eles. Ecossistemas são feitos de gente trabalhando duro – dê trabalho a eles e eles, se quiserem só se aproveitar, se esquivarão. No longo prazo, tais comportamentos imaturos por parte de alguns indivíduos também farão parte do processo de aprendizado do ecossistema, e isso faz parte do amadurecimento de uma comunidade. (iv) precisa de uma atmosfera vibrante. Eventos, aceleradoras, universidades ativas, coworkings – todos esses elementos compõem um esforço de engajamento da comunidade para a construção de uma atmosfera vibrante, e, para o autor, isso é fundamental para incentivar conexões e aquecer um ecossistema.

(b) Indicadores para um ecossistema: Foi levantada a questão sobre como avaliar um ecossistema e ótimas respostas surgiram – trackrecord de sucesso (número de investidas, de exits etc.), qualidade da mentoria (percentual de mentores que tiveram exits ou chegaram a um series B, por exemplo), número de aceleradoras, spin offs das startups, retorno das startups aos investidores, volume de investimentos etc. Recomendamos a leitura do estudo Measuring an Entrepreneurial Ecosystem para maior aprofundamento. Utilizamos bastante na Wylinka e é sempre útil na hora de refletir sobre indicadores.

O papel das grandes empresas nos ecossistemas

Um dos melhores elementos da Conferência foi a riqueza das grandes empresas presentes, como já dissemos. Não só por sua presença, mas pelas discussões que trouxeram e os conteúdos a elas ligados. Diversos casos foram apresentados, como o modelo da Telefônica Open Future, que busca atender todos os passos da evolução de um empreendedor – desde atividades nas universidades com foco inspiracional, até aceleração, venture capital e aquisição. Além disso, foi provocada a importância das grandes empresas em ir além das propostas de apoio por fomento financeiro: muitas vezes, as empresas que melhor ajudam um ecossistema não são as que criaram aceleradoras, mas as que se dispuseram a contratar startups em sua cadeia e se esforçaram para superar os desafios e apoiar o desenvolvimento como early adopters. Reforçamos o recado: mais que acelerar, precisamos de grandes empresas dispostas a contratar as startups. Algumas empresas também trouxeram exemplos de como estão se modernizando, como, por exemplo, oferecendo a oportunidade de funcionários com ideias de startups se retirarem por 3-6 meses para desenvolver seu negócio na aceleradora (ou área de inovação) da empresa como uma spin-off. 

Complementarmente, foi trazido muito do excelente material produzido pela 500startups (uma das principais aceleradoras de startups do mundo) sobre o papel das corporações em ecossistemas de startups, o ebook 500 Corporations. O material traz boas provocações e ainda organiza as melhores combinações de acordo com o objetivo da grande corporação na atuação com startups. Para a 500, são 8 potenciais maneiras de se atuar com startups: eventos; oferta de serviços para apoio; programas de startups; infra-estrutura para coworking; programas de aceleração/incubação; incentivo às spin-offs; fundos de investimento; fusões/aquisições. A escolha dessas maneiras de atuar depende muito dos objetivos da empresa, e o material apresentado faz a seguinte organização.

captura-de-tela-2016-10-20-as-09-17-51

E os conselhos para as startups?

Fechando com chave de ouro, tivemos também a presença de grandes empreendedores contando suas experiências de lançamento e crescimento, bem como trazendo conteúdos específicos para temas importantes – como Horácio Poblete falando mais sobre construir um motor de vendas, bastante baseado no livro Predictable Revenue (links úteis: no Outbound Marketing blog, ou também no Resultados Digitais). Uma outra discussão super importante, que ocorreu no painel de ecossistemas com o Igor Santiago, foi o processo de “don’t scale” do empreendedor – no primeiro momento, você precisa construir algo manual-simples-excelmesmo para atender seu cliente, pois é assim que se ganha feedback instantâneo para melhorar suas versões (que é basicamente a regra de ouro do Paul Graham, cuja leitura obrigatória é o traduzido “Faça coisas que não escalam”).

Enfim, poderíamos nos estender por muitos temas ainda, mas consideramos esse compilado de bom tamanho para mergulhar um pouquinho no tanto que o ecossistema de Campinas ofereceu aos seus visitantes nessa Conferência. E que os outros ecossistemas brasileiros possam se inspirar e cada vez mais transbordar reflexões iguais!

Because when you rock, #wyrock 🙂

 

7 thoughts on “Como Campinas tem ensinado a construir uma região empreendedora no Brasil”

  1. Paulo Lemos says:

    Muito boa a síntese!

    1. Wylinka says:

      Oi, Paulo! Pra gente é bem importante um comentário de alguém tão relevante como você! Que tal uma conversa sobre sinergias da Wylinka com seu trabalho? Pode ser bem útil no esforço que estamos fazendo para gerar impacto nos ecossistemas de empreendedorismo e inovação do Brasil! Se tiver interesse, manda um email pra mim (Anna Bolívar aqui!): [email protected]

  2. Alan Mendes says:

    Otimo conteudo e artigo, gostei muito, parabens !!!

  3. Elmar Oliveira says:

    Excelente artigo!! Gostei muito, com muitas dicas e sacadas!! Isso vai me ajudar bastante! Meus parabéns!

    1. Wylinka says:

      Obrigado, Elmar! Nos ajude divulgando 🙂

  4. Ivo says:

    Interessante.

  5. Conrado says:

    Interessante.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Protected by WP Anti Spam