Empreendedorismo e Universidades: na UFMG, a Escola de Engenharia dá um recado para 2016

Uma das crenças quase unânimes quando se fala de ecossistemas de empreendedorismo no Brasil: temos um grande gargalo nas universidades. Diretamente ligada à formação de capital humano – seja empreendedores, seja mão de obra para atuar em novos negócios -, o papel da universidade se tornou uma recente cobrança constante para o nosso país. 

Dois eventos marcaram bastante tal demanda. No primeiro deles, os principais investidores da atualidade afirmaram ao Bloomberg “A month doesn’t go by where we don’t have a Brazilian company that we’re looking at (…) What you’re seeing is a moderated Brazil still. If things start to turn, you’re really going to see the avalanche of investors.”. O principal entrave? “talent to staff startups”. O recado estava dado. Alguns meses depois, saía o relatório Global startup ranking 2015 (baixe aqui), que tinha a cidade de São Paulo como a destaque do Brasil – ocupando a décima segunda posição global, positivamente influenciada pela disponibilidade de capital para as startups e negativamente influenciada por, novamente, capital humano (talent). 

Com tal desafio evidenciado ao país, fica a questão – quais papéis podem vir a ser desempenhados por universidades em ecossistemas de empreendedorismo? As respostas são diversas e muito já se tentou responder, geralmente apontando para questões como incentivo à colaboração com o mercado na produção de alta tecnologia, formação de mão de obra qualificada, oferta de infra-estrutura para comunidades de startups e diversos outros papéis. E a partir daí chegamos em um questionamento mais importante: como se dão os processos de mudança nas universidades rumando a tal direcionamento? Foi pensando nisso que a Escola de Engenharia da UFMG desenhou seu atual plano para se reinventar, e a Wylinka resolveu aprofundar mais nesse universo. 

A grande inspiração para os atuais processos de mudança da EEUFMG se estruturam em modelos bastante interessantes do exterior, em especial a Universidade da California em Berkeley (Universidade com a qual a EEUFMG está estabelecendo uma parceria para fomentar a inovação e o empreendedorismo) e o Olin College. Olin College não é tão conhecido quando o assunto são ecossistemas internacionais e modelos de universidade, porém, deveria ser. Com destaque recente, Olin já chama a atenção dos EUA por seus programas em engenharia sendo positivamente rankeados e considerados no país, e também por sua estrutura de 3 pilares baseados em conceitos do design, onde a inovação nasce do encontro de desejabilidade (as pessoas querem?), factbilidade (é factível tecnicamente?) e viabilidade (se sustenta financeiramente?).

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A estrutura das mudanças, inspirada no modelo de Olin College, reflete nos 3 pilares presentes no projeto intitulado ENG200, que se deu início em 2012: (i) aperfeiçoamento da estrutura de formação técnica em engenharia (feaseability); (ii) aproximação e estímulo ao desenvolvimento de competências ligadas ao contato com o mercado e gestão empresarial (viability); (iii) desenvolvimento de uma atmosfera vibrante de modo a desenvolver criatividade, espírito de liderança e outros traços mais ligados às humanidades (deserability).

1. Learn to build: No aperfeiçoamento da estrutura de formação técnica em engenharia, os esforços se voltam para melhorias nos processos de feedbacks dos alunos para professores, reformulação das disciplinas de base (pensando no que se espera de um engenheiro para o futuro), criação de oportunidades para alunos oferecerem oficinas para os outros alunos, espaços de estudo e atenção constante às melhorias nas estruturas de aula. Segundo a Escola, o envolvimento por parte dos professores nesta etapa é fundamental, e o processo ainda se encontra em fase inicial de engajamento, tentando atingir cada vez mais os docentes para colaboração no redesenho da escola pensando sempre na formação de um engenheiro inovador. Para isso, o ENG200 tem como plano construir um Centro de Educação em Engenharia, que irá auxiliar nas melhorias de programas de ensino e melhor capacitar os professores para tais novas dinâmicas.

2. Learn to evaluate: Para a aproximação e estímulo ao desenvolvimento de competências ligadas ao contato com o mercado e gestão empresarial, diversos são os esforços de aproximação do aluno com a vivência prática, tais como visitas técnicas mais intensivas, redesenho das diretrizes de estágio e de TCC, competições de Plano de Negócios e exposições de empresas em contato com alunos. Há também uma louvável atenção à atualização das disciplinas, sendo duas de destaque para nosso tema: introdução a projeto, cuja ênfase se dá na vivência prática e no contato com novas ferramentas, e introdução à engenharia, na qual o aluno se apropria de conceitos como business model generation e design thinking, além de ser apresentado aos possíveis horizontes que um engenheiro pode possuir em carreiras mais inovadoras, como o empreendedorismo e o cenário de startups.

3. Understand what people want: Por último, o desenvolvimento de uma atmosfera vibrante é o mais perceptível na Escola – e conseguimos coletar diversos depoimentos de alunos que consideram os esforços da diretoria fundamentais para tal florescer. Neste ponto, foi dada atenção ao fortalecimento da Atlética e da Charanga (banda da escola), estímulo ao engajamento em atividades complementares, oferta de disciplinas em inglês, calorosa ação no “engenharia recebe” (evento de recepção de calouros, no qual se apresentam diversas iniciativas complementares à formação do aluno), além de todo o suporte oferecido aos movimentos estudantis capazes de colaborar com uma formação mais humana ao aluno. No campo do ensino, espera-se conseguir aumentar cada vez mais a flexibilização curricular, que começou há mais de 10 anos, permitindo o aluno obter créditos cursando disciplinas em outras áreas da UFMG, de modo a construir sua própria formação com liberdade e autonomia

Os desafios e críticas são sempre constantes, o programa ainda não é conhecido por todos os alunos da Escola, não há tanta integração nas comunicações, há ainda certa relutância por parte de alguns professores – desencadeando em críticas nos modelos tradicionais de ensino, mas há muito sendo feito para recuperar tais deficiências. A estratégia do ENG200 é bem clara, e se alinha aos mais maduros modelos de transformação de universidades (como o proposto por Burton Clark no famoso livro “Creating Entrepreneurial Universities”): a transformação acontece quando se empodera os movimentos autônomos e espontâneos, tornando-os mais bem estruturados e conectados – como colocou o atual diretor ao nos apresentar seus planos de transformação: “o segredo é potencializar os bright spots, pois eles têm grande poder de gerar mudanças”. 

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Números relativos à evasão de alunos fornecidos pela EEUFMG

Saímos de nossa imersão com a certeza de que, embora as universidades sejam um grande gargalo no país, há quem esteja tentando reinventá-las para a formação de pioneiros e inovadores. E que, como ditam bons nomes do empreendedorismo, Paul Graham e Steve Blank, há na diretoria um grande foco no aluno – e essa “user obsession”, que talvez seja uma das grandes responsáveis pela baixa taxa de evasão (ver gráfico acima) foi comprovada com a agenda do Prof. Alessandro Moreira, diretor da Escola: sua carga de trabalho concentra-se muito mais em reuniões com alunos do que com professores. Na Escola de Engenharia da UFMG, a mais alta liderança é a primeira a dar o exemplo.

Quer conhecer um pouco mais do projeto? Confira no novo site: www.eng.ufmg.br/eng200

Outras leituras interessantes sobre o tema:
Estudo: Entrepreneurial impact: The role of MIT (clique para baixar)
Livro: Universidades e Ecossistemas de Empreendedorismo, Paulo Lemos
Acadêmicos renomados: Burton Clark, Guilherme Ary Plonski e Henry Etzkowitz

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