Guia básico de inteligência emocional para criativos

Designers, fotógrafos, desenvolvedores, acadêmicos, escritores, empreendedores – diversas são as profissões que demandam bastante criatividade e que são prejudicadas por desafios emocionais. O pior de tudo é que vivemos em um contexto no qual observar (e assumir) as próprias emoções é algo ruim, visto como fragilidade ou exagero. Nessa cultura, vamos jogando para baixo do tapete muitos problemas que podem se acumular e tornar-se grandes barreiras na vida profissional. Consequentemente, surgem comportamentos considerados como cotidiano dos criativos e raramente relacionados com angústias pessoais: procrastinação, bloqueio criativo, má organização, problemas de relacionamentos no trabalho e falta de capacidade de liderar equipes. É preciso entender que esses desafios têm relação direta com questões emocionais, e, a partir disso, buscar melhorias com base em muita coisa já discutida sobre o conceito de inteligência emocional. O objetivo desse texto é apontar os 5 elementos propostos por Daniel Goleman (PhD em psicologia por Harvard) no famoso livro que deu origem aos debates sobre inteligência emocional no mundo inteiro. Segundo o Fórum Econômico Mundial, inteligência emocional será uma das principais habilidades esperadas por um profissional em 2020, e o nosso papel aqui é trazer algumas práticas legais para melhorar sua relação com o tema.

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O fantasma da procrastinação

A procrastinação foi pauta de um dos nossos posts mais famosos, e é muito comum no ambiente de tecnologia, por exemplo. Os prazos não saem no tempo, há dificuldade em se produzir um conteúdo ou uma arte interessante e geralmente as coisas saem de última hora cercadas de desculpas e com a qualidade abaixo da esperada. O fato é: todos nós procrastinamos. E quanto maior a qualidade do trabalho das pessoas que te cercam, ou da qualidade esperada pelo seu trabalho, mais comum é se encontrar procrastinando. A procrastinação está ligada a uma característica interessante da inteligência emocional: o autoconhecimento. Não é discurso motivacional não, o fato é que a procrastinação surge quando ficamos paralisados, nos sentindo incapazes de desempenhar uma tarefa. Não percebemos, mas por trás do “fugir da tarefa e ficar no facebook” há uma fuga da sensação de inferioridade que a tarefa traz, sensação que só passa com uma dedicação consistente em conhecer seus medos, em encará-los, aceitá-los e seguir tentando. Os artigos que coletamos para escrever esse texto apontam algumas saídas para isso: praticar caminhadas refletindo sobre seus medos, problemas e ansiedades; conversar com outras pessoas sobre esse a procrastinação (lembrando, todos passamos por isso); meditação. Uma dica que usamos na Wylinka é fazer uma “to-do list” das tarefas do dia e cumprir as mais fáceis para ganhar movimento e confiança, e aí partir, de maneira focada e sem distrações, para as mais difíceis. Lembrando: as angústias geralmente são muito profundas, é preciso dedicar tempo para se conhecer, o resultado não vem como mágica, mas é recompensador.

Uma ótima, e profunda, reflexão sobre procrastinação é essa aula no Café Filosófico: https://www.youtube.com/watch?v=UK49cyajj24

Começar muitos projetos, acabar nenhum deles

Esse é um padrão que ficou famoso após a frase de um líder brasileiro: “não basta ter muita iniciativa, é preciso ter acabativa”. Em ambientes criativos, o excesso de iniciativas é muitas vezes prejudicial, mas vem mascarado de insights – o que gostamos de dizer na Wylinka que “é quando o caos se disfarça de epifania”. É importante que tenhamos muitas ideias, e que até mesmo descartemos outras, mas há uma linha tênue entre amadurecimento criativo e falta de foco. Em boa parte dos casos, a desistência é falta de coragem para enfrentar grandes compromissos e pressões – e, excetuando os casos em que o desistir é um ato saudável e importante para colocar limites, muitas vezes está ligado à falta de resiliência. Você trabalha com criatividade? Vai ser difícil, você vai errar, você não vai gostar do seu trabalho, os outros não vão gostar do seu trabalho, mas você precisa passar por cima de tudo isso para se aperfeiçoar. O autocontrole é o segundo ponto da inteligência emocional: saber respirar em um momento de pressão, pensar duas vezes antes de tomar decisões, não largar tudo em períodos difíceis, todas essas são habilidades relacionadas à capacidade de autocontrole, e possuem bastante influência nos processos de desistência e falta de acabativa. Um trecho muito útil para momentos de dificuldade dos processos criativos foi escrito por Ira Glass:

“Ninguém conta isso para as pessoas que estão começando, e eu gostaria que alguém tivesse me contado. Todos nós que possuímos trabalhos criativos, nós entramos nisso porque temos bom gosto. Mas existe um gap: durante os primeiros anos de criação você constrói coisas que não são tão boas. Estão no caminho de serem boas, têm potencial, mas ainda não são. Mas seu bom gosto, aquilo que te colocou nesse jogo, o seu bom gosto continua implacável. E o seu bom gosto é o que te desaponta. Boa parte das pessoas nunca passa por essa fase, elas desistem. Boa parte das pessoas que eu conheço que trabalham com criatividade passaram durante anos por isso. Nós sabemos que nosso trabalho não tem aquela coisa especial que gostaríamos que tivesse. Nós todos passamos por isso. E se você está começando ou se você ainda está nessa fase, você precisa entender que isso é normal e que a coisa mais importante a se fazer é trabalhar bastante. Coloque prazos para que semanalmente você termine uma história. É só passando por um bom volume de trabalho que você vai encerrar esse gap, e seu trabalho será tão bom quanto suas ambições. E eu perdi mais tempo para descobrir isso que qualquer pessoa que já conheci. Isso vai levar um tempo. É normal que leve um tempo. Você só precisa lutar para passar por isso.”

 

O bloqueio criativo

O bloqueio criativo geralmente ocorre a partir do acúmulo de pendências emocionais não observadas ou anestesiadas – por exemplo: um fotógrafo que, ao se deparar com aflições emocionais, começa a tentar diversos projetos diferentes para se sentir motivado a continuar fotografando (enquanto joga para debaixo do tapete suas aflições e inseguranças), que busca em novos equipamentos uma solução para novas abordagens fotográficas e que sempre externaliza sua insegurança nesses e outros padrões (como o hábito de criticar outros fotógrafos), cenário bastante comum no universo da fotografia, mas que também ocorre em outros ambientes de profissionais criativos. O bloqueio criativo vem em diversas maneiras – acúmulo de stress, acúmulo de inseguranças escondidas, pensamentos de incapacidade, entre outros – mas também pode ser superado com um pouco de disciplina. O primeiro passo é compreender que há algo por trás do bloqueio, que não é algo que vem de repente e que vai de repente, há motivações tanto para sua chegada quanto para sua partida. O segundo passo é buscar uma outra abordagem: tentar se afastar por um período para aliviar a pressão (e buscar entender a pressão), buscar ressignificar as coisas e os valores, entendendo suas reais motivações e interesses. É por isso que períodos sem trabalhar (finais de semana e férias) são importantes – servem como uma maneira de você se desligar um pouco da abordagem habitual e encontrar novos significados que possam fortalecer sua relação com seu processo criativo. O bloqueio criativo está relacionado ao terceiro ponto-chave da inteligência emocional, a motivação – ou a capacidade de encontrar motivação, de se manter motivado por longos períodos e de não se deixar desmotivar (aceitando que baixas de motivação fazem parte do processo também, somos humanos!).

A dificuldade em confiar nos outros

O quarto elemento é muito vívido em ambientes de empreendedorismo: a falta de confiança na comunidade, o excesso de panelinhas, as brigas e os problemas nos relacionamentos profissionais em geral. É relativamente fácil encontrar motivos para não fazer um projeto com alguém ou para não avançar em uma relação, e o problema ocorre quando uma pessoa passa a enxergar motivos em todas as pessoas – acaba sendo o foco principal da pessoa criticar e encontrar defeitos no trabalho alheio. Recado importante para 2016: pessoas têm defeitos, pessoas são diferentes e a gente precisa aprender a conviver. A incapacidade de compreender que os problemas do outro fazem parte de um leque maior de características, leque este que pode ser repleto de boas características também, tem criado críticos profissionais e gerado ambientes de criatividade no qual um dos elementos centrais, a colaboração, se esvai. “Seja bondoso, todo mundo enfrenta uma batalha pessoal que você não possui a mínima ideia”, diria Dalai Lama em uma de suas máximas. Para os ambientes de colaboração, podemos reduzir a frase em um conceito: tenha empatia e trabalhe bastante. O trabalho reforça os desafios, os desafios te humanizam, te fazem compreender que aquela pessoa tem seus motivos e desafios pessoas para errar, e o seu papel é compreender e trabalhar com isso. Empatia é a quarta competência da inteligência emocional, e a capacidade de ser empático forma líderes melhores e pessoas mais capazes de construir relações colaborativas e positivas – e ela acaba quando sentimos medo do outro, quando nos consideramos tão frágeis a ponto de qualquer defeito alheio nos destruir. Se você não acredita muito no que falamos, deixamos o argumento de autoridade para Nelson Mandela (podia ser Yoda também), em uma carta escrita na prisão:

“É preciso reconhecer que as pessoas são feitas do barro da sociedade e que, portanto, são seres humanos. Elas têm pontos fortes e fracos. Seu dever é trabalhar com os seres humanos como eles são, não porque pensa que são anjos. Portanto, uma vez sabendo que um homem tem esta virtude e aquela fraqueza, você trabalha com elas, se adapta à fraqueza e procura ajudá-lo a superá-la. Não quero viver assustado pelo fato de uma pessoa poder cometer determinados erros e ter fragilidades humanas.”

Os obstáculos dos líderes criativos

Dialogando com a empatia, e com boa parte dos outros 4 pontos, temos a última habilidade trazida por Goleman em seu livro: a habilidade de se relacionar com outras pessoas. Essa habilidade faz com que as pessoas consigam criar laços, responder de maneira assertiva, motivar os outros, oferecer feedbacks de maneira efetiva e se conectar de maneira significativa. Superficialmente vista como carisma, a capacidade interpessoal vai além e muitas vezes vem com uma construção consistente de pequenas atitudes que vão preparando o terreno para bons relacionamentos. Por mais que isso seja amplamente difundido, profissões criativas, como em desenvolvimento de software, são típicas por suas personas que não conseguem se relacionar tão bem – formando um exército de líderes com dificuldades de construir equipes. Saber sentir o ambiente social, saber quais palavras usar e saber o que fazer para mobilizar pessoas é algo raro hoje em dia, e algumas práticas podem auxiliar: abrir-se quanto às suas limitações e dificuldades; encontrar mecanismos de suporte à introversão (sair para caminhar e conversar com funcionários é o caminho que muitos líderes encontram para superar as situações incômodas de (i) ficar a sós encarando uma pessoa para conversar sobre temas difíceis ou (ii) falar em público para propagar uma mensagem).

Se eu fizer tudo isso, terei a tal inteligência emocional?

Não é tão simples, pois é algo que se constrói aos poucos e é uma transformação mais ligada ao autoconhecimento que a práticas externas. As praticas ajudam, mas o importante é observar suas emoções e como estas se materializam, compreendendo que, em ambientes em que se exige muito do intelecto e da criatividade, isso fica mais intenso. A proposta desse texto foi de trazer os 5 elementos básicos da inteligência emocional (autoconhecimento, autocontrole, automotivação, empatia e habilidade interpessoal) e como eles se materializam em forma de dificuldades para profissionais ligados à criatividade. Temos certeza que, se conseguirmos ao menos trazer atenção aos 5 pontos, já é de grande valia para o dia-a-dia dessas pessoas, e o exercício da disciplina para superá-los vem com tempo e consistência.

Esperamos ter sido úteis e melhorado a relação de vocês com vocês mesmos! Because when you rock, #wyrock! Acompanhe a Wylinka no facebook clicando aqui ou confira nosso site clicando aqui!

Referências utilizadas
Livro Inteligência Emocional, Daniel Goleman
7 Reasons Why Emotional Intelligence Is One Of The Fastest-Growing Job Skills
Emotional Intelligence: The Social Skills You Weren’t Taught in School
Why Young Bankers, Lawyers, and Consultants Need Emotional Intelligence

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