O que há de errado com os mentores de startups no Brasil?

Esse post nasce de uma crítica ao universo de fotografia escrita por um renomado professor de São Paulo:

“(…)Quando eu era mais novo, acreditava que pessoas que ‘tinham voz’ tinham porque sua opinião era consistente, estudada; afinal alguém tinha dado um megafone para eles, certo?
Errado. Megafone está aí pelo chão para quem quiser pegar. Pega não quem tem algo a dizer, mas quem morre de vontade de dizer qualquer coisa. E aí vira um inferno.” (fonte e citação completa: Alex Villegas)

E esse é o principal problema dos mentores do ecossistema de startups do Brasil: muito ego, pouca experiência. Não há nada de errado na figura do mentor de startups, inclusive autores renomados (Bluestein e Barret, 2010; Katz e Green, 2009) na academia apontam que o elemento “mentor” é um dos maiores diferenciais em casos de sucesso nas startups, o que se questiona aqui é o ethos que os mentores têm adotado em suas práticas no nosso país. Por definição, mentor é aquele que carrega consigo experiências e vivências capazes de auxiliar pessoas em estágios mais iniciais em sua carreira ou em seu negócio.

O termo tem sua origem na mitologia grega, na qual mentor era a personificação da deusa Atena, que se incorporava na figura de um humano (de nome Mentor) para direcionar Telêmaco devido à proximidade com Ulisses e sua família. Ou seja, o elemento da experiência para nortear o mentorado em uma específica jornada é fundamental, coisa muitas vezes desconsiderada na realidade brasileira.

Em que pé estamos?
O ecossistema brasileiro ainda passa por estágio de amadurecimento, como todos sabemos, e tal fato influencia na ausência de experiência e vivência por parte de alguns mentores. Devido a isso, a busca por mentores em fundos/clubes de investimentos internacionais tem sido prática bastante comum para aqueles que tem tal acesso. Aos outros, cabe a busca por pessoas mais experientes que tiveram alguma vivência em seu mercado específico – às vezes pessoas que viveram os mesmos problemas iniciais em outras startups, às vezes pessoas com muito tempo de casa em grandes empresas que atuam no mesmo segmento do empreendedor.

O ponto negativo aqui ocorre quando surgem mentores que nada tiveram de vivência, mas que buscam se posicionar como “mentor do mercado de startups” e oferecer direcionamentos muitas vezes invasivos e incabíveis à realidade da startup. O resultado? Empreendedores que não têm segurança, pelo simples fato de serem novatos, sendo bombardeados por pessoas que muitas vezes desconhecem a realidade daquele mercado, e isso mina a inovação.

Quais os principais problemas?
Excesso de autoridade, auto-centramento, falta de vivência e interferências que fogem à esfera de execução da startup.

  1. Excesso de autoridade: como já colocado, o mentor que dita ordens e afirma que o caminho x é o correto sempre comete o erro de forçar decisões. É importante que empreendedores aprendam, e isso não se faz com ordens, se faz de maneira socrática – questionando e levando os mesmos à reflexão (mesmo que no post-mortem da startup mentorada). E quem é autoridade em uma relação mentor-mentorado? A realidade mostra que ambos se encontram, muitas vezes, no mesmo estágio, e aprendem em conjunto. O mentor está ali para ajudar a startup a evitar possíveis erros que ele já aprendeu, mas constantemente ele aprende tanto quanto o mentorado.
  2. Auto-centramento: basicamente ego. Infelizmente, a realidade do empreendedorismo no Brasil ainda é cercada de muito ego e pouca execução. E para alimentar a imagem de uma “figura de sucesso” nesse mercado, tem se a busca pelos títulos de mentor, facilitador, palestrante e tantos outros. Em suma, muito palco pra pouco backstage. 
  3. Falta de vivência: decorrente do excesso de palco, sobra pouco tempo pra execução. E com pouca execução, temos apenas a experiência de ouvir os outros falarem sobre suas realidades – fazendo com que muitos mentores caiam na armadilha de repetir discursos vazios e dar conselhos sem profundidade alguma.
  4. Interferências sem uma dose de realidade: trata-se aqui do ato de esquecer da esfera de execução da startup. Compreender o que ela pode entregar e o que ela acredita como direcionamento estratégico é saber respeitar limites, construir em conjunto e oferecer direcionamento prático – nada de grandes sonhos sem pouca realidade, como muitos mentores têm feito.

Colocando um fim ao mimimi: o que pode ser feito?
Acreditamos profundamente que não basta reclamar do ecossistema, é preciso dar direcionamento para o mesmo – e é para isso que temos na nossa missão esse suporte bem embasado. Para isso, separamos um Manifesto do Mentor, criado pela aceleradora Techstars, com o objetivo de dar um melhor direcionamento a aceleradoras e outras instituições que trabalham com a figura dos mentores, ressaltada aqui como de suma importância. O download pode ser feito aqui: Wylinka – Mentor Manifesto (fonte: Startup Communities, Brad Feld – esse é um print de uma página do livro).

Por fim, o post é uma crítica, mas uma crítica que espera se transformar em impacto através de aprendizagem para futuros mentores. E que a figura do mentor lidere sempre pelo exemplo – com casos reais de sucesso influenciando futuras gerações de empreendedores.

10 thoughts on “O que há de errado com os mentores de startups no Brasil?”

  1. Rogério Aquino Nogueira says:

    Ótimo texto, e realmente reflete bastante a realidade do que tenho observado dos mentores. Eu mesmo, que eventualmente sou perguntado sobre minha opnião em algumas startups me vi tendo postura semelhante. Valeu o Toque!

  2. Jean Lucas (@aleattorium) says:

    Às vezes penso que os reais mentores não estão por aí nos palcos. Ainda mais porque esse tipo de palco afasta os mentores. É uma crítica séria essa e todas as startups procurando mentores têm de ter em mente a importância do mentor e como deve ser alguém que vai te ajudar a executar, aumentar sua rede de contatos e não ser um showmen (geralmente) tentando te convencer a dar algo em troca.

  3. Pierre Schurmann says:

    Excelente post! Tem muito “professor de surf” que nunca pegou uma onda. E se pegasse levaria caldo, na certa. Mas, como o mar e o tempo lavam tudo, eventualmente o mercado separa o joio do trigo.

  4. adrianobrc says:

    Pessoal, ao criar uma startup, lembre que ela é uma empresa e nao uma ONG. Trabalhar de graca é sonho: busquem um cliente que pague.

    1. Aline Souza says:

      Olá Adriano, só para esclarecer: ONG também pode cobrar pelas atividades que presta e desenvolver uma iniciativa de negócio tal como uma startup na sua estrutura. Não há nenhuma vedação em relação a tipo de atividade que for vir a ser desenvolvida. O limitador, de fato, é a vedação à distribuição de lucros, mas é permitido o reinvestimento no objeto social da ONg e pagamento prolabore dos profissionais.

  5. Marcelo Antonio Homem De Mello says:

    Desculpe………… Há mentores e Mentores, como qualquer tipo de profissionais em qualquer setor da indústria, comércio ou prestação de serviços, não é particularidade das mentorias para novos negócios ou startups.

  6. Marcelo Antonio Homem De Mello says:

    Mentor é um profissional, de destaque em sua área de atuação, que deve possuir indícios reais de sucesso neste nicho. Deve ser um inspirador e um facilitador, auxiliar na rotina da modelagem de negócios. Normalmente voluntário, colabora gratuitamente com sua experiência, doa o seu tempo. Do contrário, se remunerado, direta ou indiretamente, é outro papel que vem exercendo, e para tanto, tem deveres a cumprir, dentre eles, fazer seu cliente performar melhor. Creditar sucesso ou insucesso de qualquer coisa que seja ao mentor, é no mínimo incoerente. Deve sim ser melhor entendido cada papel na cadeia de valor; Mentor, Coaching, Tutor ou Consultor, entender as atribuições e expertises, introduzindo-os nos planos de acordo com o momento e a necessidade, sendo que o papel maior é sempre do cliente empreendedor.

  7. Mack says:

    Acredito que existam 2 lados desta mesma moeda. Eu ví este mesmo movimento ocorrer na época do É o Tchan com a glamourização da bunda que resultou na bundalização do Glamour por sub-celebridades em BBBs. A entrada de tantos ” leites com pêra com anel de mentor me lembra ( muito) aquela frase da música do paralamas ” 500 picaretas com anel de doutor” … Até ai eu concordo com o ” desabafo” mas… Se pode notar, usei em meu comentário uma série de comparações e citações que precisam de raciocinio, conhecimento de cultura geral para sua inteira compreensão. Muitas vezes o empreendedor é preguiçoso e despreparado. Querem fazer o mentor de ” tecla de atalho” e quer uma resposta assim: ” Bem verdade que o texto fala muitas verdades e a entrada de mentores com pouca ( ou nenhuma experiência) em busca de glamour, banaliza a figura do mentor e afugenta empreendedores mais experientes com habilidades e disposição de compartilhar”
    É preciso compreender que Mentor não é Consultoria … É Manual de Consulta dinâmico e ativo, como o Mago Zohar no Filme Inteligência Artificial ( AI) Agora a pergunta que eu deixo é: Demonstrei que existe muito empreendedor babaca ou apenas fui mais babaca ainda por me dar o trabalho de fazer um comentário com uma pergunta? Afinal, Chapollin Colorado diz que apenas idiotas respondem perguntas com outras perguntas…

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  10. janete says:

    muito bom o seu artigo

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